Tecnologia do Coliseu de Roma é usada para monitorar estrutura do Museu do Ipiranga em SP
Da Roma Antiga a São Paulo: tecnologia de escaneamento 3D a laser no Museu do Ipiranga
Uma tecnologia de escaneamento 3D a laser, antes empregada no monitoramento do histórico Coliseu de Roma, está sendo utilizada para mapear e preservar a estrutura do Museu do Ipiranga, na Zona Sul de São Paulo. O objetivo é acompanhar a integridade do edifício após uma reforma que o manteve fechado por nove anos e criar um modelo digital para auxiliar na conservação preventiva do patrimônio.
Como funciona o escaneamento: precisão milimétrica e o ‘gêmeo digital’
Pesquisadores utilizam um equipamento portátil, do tamanho de uma caixa de sapato, que emite raios laser para registrar as coordenadas de cada ponto das paredes, pisos e fachadas do museu. Essa técnica permite captar variações na superfície com precisão de milímetros, revelando desníveis, grau de umidade e até pequenos sinais de mofo que poderiam passar despercebidos em inspeções visuais. Os dados coletados formam uma “nuvem de pontos”, que serve de base para a criação de um modelo tridimensional conhecido como “gêmeo digital”.
Diferentemente de medições tradicionais, o escaneamento a laser registra a superfície real com alta exatidão. O professor de Arquitetura da Universidade de Ferrara, Marcello Balzani, compara o processo a exames médicos de imagem, como raio-X, ultrassom e tomografia, afirmando que o edifício “respira e se transforma com o tempo” e que a tecnologia permite investigar sua estrutura em profundidade.
Parcerias acadêmicas e histórico de colaboração
O projeto é resultado de uma parceria de 20 anos entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Ferrara, na Itália. A execução do escaneamento no Museu do Ipiranga foi realizada por pesquisadores italianos da mesma equipe que trabalhou no Coliseu. A coordenação científica do projeto Ipiranga Digital é da professora Beatriz Kühl, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
HBIM e a conservação preventiva
O modelo tridimensional gerado é baseado na metodologia HBIM (Historic Building Information Modeling), que permite criar uma representação digital detalhada do edifício. A equipe italiana já havia escaneado o museu entre 2017 e 2018, antes da obra de restauração. A comparação entre os levantamentos anteriores e o atual permite identificar alterações na estrutura após a reforma.
O “gêmeo digital” possibilita registrar todas as manutenções realizadas e investigar as causas de possíveis problemas, como falhas em instalações elétricas. Além disso, a ferramenta pode ser utilizada para simular cenários extremos provocados por mudanças climáticas, como temporais mais fortes e dias de calor intenso, avaliando como o prédio pode reagir. A antecipação de problemas, segundo os pesquisadores, custa menos, evita obras pesadas e reduz a necessidade de intervenções emergenciais no patrimônio histórico.
O Museu do Ipiranga: história, acervo e o impacto da nova tecnologia
Projetado para celebrar a Independência do Brasil, o Museu do Ipiranga foi construído entre 1885 e 1890 e inaugurado em 7 de setembro de 1895. Com 130 anos de história, é o museu público mais antigo da capital paulista e é tombado como patrimônio histórico municipal, estadual e federal. O acervo reúne mais de 450 mil itens, entre objetos, fotografias e documentos do século 17 até meados do século 20, incluindo a famosa tela “Independência ou Morte”, de Pedro Américo.
A adoção da tecnologia desenvolvida para o Coliseu visa implementar técnicas avançadas de monitoramento e proteção, garantindo que o acervo do museu esteja protegido contra deterioração e danos. Especialistas enfatizam que a tecnologia permitirá um melhor manejo dos riscos associados à preservação do patrimônio, com a integração de sistemas modernos de sensoriamento e automação para intervenções proativas.
No Coliseu, a tecnologia gerou cerca de 150 terabytes de informações, que foram processadas e analisadas por especialistas. Balzani ressalta que, mais do que a tecnologia, o conhecimento das pessoas é fundamental para interpretar os dados e extrair sentido das informações, comparando o scanner a uma ferramenta que depende da capacitação técnica humana para seu pleno uso.

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